- Categoria: Mídia
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Virar o pescoço para apreciar uma mulher bonita que passa é quase um reflexo masculino. Mal dá as costas ao sujeito, a mulher já pode adivinhar exatamente para onde ele vai olhar. Será? E se ele desviasse os olhos para os calcanhares redondinhos que escapam da sandália?
Há bem mais homens dispostos a se jogar aos pés de uma mulher do que elas imaginam. Para os admiradores de pés, os podólatras, a beleza feminina começa de baixo para cima.
• A primeira coisa que olho em uma mulher são os pés - afirma o universitário Jairo, 23 anos. - Se estiverem bem cuidados, com unhas feitas, chamam mais atenção ainda.
Há até bem pouco tempo, Jairo achava que era um dos únicos a ver graça no que a maioria nem repara. Mas hoje a Internet revela que a podolatria é muito mais comum do que os próprios podólatras podiam imaginar. No Orkut (portal para fazer novos amigos e formar grupos de discussão), há pelo menos 400 comunidades sobre pés e seus encantos - mais da metade das que falam de seios, por exemplo. A moda também chegou aos fotologs (álbuns virtuais): há fotos de pés nus, com sandálias, meias e até ensaios fotográficos de namoradas de podólatra - mostrando apenas do tornozelo para baixo.
• Antes da Internet, me sentia sozinho na multidão. Agora, vejo que os podólatras são uma multidão - conta Jairo.
Dos simples admiradores aos mais aficionados, há diferentes graus de adoração aos pés. Para os podólatras, beijar, massagear e tocar os pés é apenas uma pimenta a mais no sexo. Já os chamados podófilos, de acordo com a presidente da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana, Jaqueline Brendler, só conseguem se excitar literalmente pegando no pé da parceira - mesmo que na fantasia. Em ambos os casos, dois traços em comum: idolatrar pés alheios não implica gostar ou ter um cuidado especial com os próprios pés (até acham graça da idéia) nem mesmo assumir publicamente essa preferência.
Com exceções como o poeta paulista Glauco Mattoso, autor de Manual do podólatra amador, e o curitibano Giuliano Moretti, que lançou Tesão por pés, a maioria dos apreciadores de pés prefere o anonimato. Não é difícil entender por quê. As pessoas só têm coragem de admitir, diz Jaqueline Brendler, o que é culturalmente aceito: gostar de bumbum no Brasil ou de seios nos Estados Unidos, tudo bem. Pernas, cintura, até vai. Mas nem todo mundo está disposto a entender que erotismo pode ter um pé - ou mesmo dois.
Basta uma espiada na Internet para se ter idéia do que é que um pé tem - ao menos para quem os aprecia. A lista é longa: a simetria dos dedos, o formato do calcanhar, a curvatura de um pezinho (eles preferem chamá-lo no diminutivo) e até mesmo o chulé podem levar um podólatra à loucura. Há até quem goste de um pé feio, malcuidado, mas parece minoria.
Para pegar um homem pelo pé, melhor não dispensar hidratante e pedicure. Muito menos salto alto. Salvo exceções, os sapatos confortáveis não agradam muito.
• Não há nada mais assexuado para uma mulher do que um tênis - diz o técnico em processamento de dados Eduardo, 40 anos, fã dos pés de Xuxa e Luiza Brunet. - Até namoraria os pezinhos da Gisele Bündchen, mas eles não são muito legais, não.
Há cinco anos, Eduardo descobriu o melhor ponto de vista para sua paixão por pés debaixo da escada de uma danceteria da Capital. Pelo menos uma vez por semana, das 23h30min às 5h da madrugada, ele assume seu posto sob os degraus vazados em formato caracol, por onde vê passar seu objeto de desejo e, às vezes, até estende a mão para ser pisada por um salto alto. Mas basta se aproximar uma mulher de saia ou acompanhada para Eduardo abandonar momentaneamente o posto: melhor do que ser mal interpretado. Lá, na penumbra da boate, ele assume a seu jeito o gosto por pés de que a família e os amigos mal desconfiam - mas que já é folclórico na noite porto-alegrense.
• Já aconteceu de alguma menina vir falar comigo. Aí, tento explicar que era um sapatinho lindo e não deu para controlar - conta Eduardo. - Há os que me rotulam de o "louco do pé" ou o "tarado do pé". É um jeito de as pessoas lidarem com o que não entendem, mas vivo bem com isso.
Depois de experiências malsucedidas, Eduardo desistiu de idolatrar o pé das namoradas. Quando está comprometido, limita-se a apreciar "um calcanhar que passa ou um dedinho mais atrevido". Mas nem todos abrem mão de pegar no pé da mulher amada. Bastou criar um pouco de intimidade, o universitário Marcelo, 30 anos, já revela para a garota qual é seu objeto de desejo. Na escolha entre manter sua paixão por pés ou um relacionamento com uma mulher que não goste muito da idéia, é mais fácil ele ficar com a primeira opção. No entanto, até hoje, o saldo foi positivo: vencido o estranhamento inicial, a maioria gostou de tê-lo a seus pés.
• Ao final, elas percebiam que o prazer não é só do podólatra - conta Marcelo.
Mais difícil é relevar um pé feio. Apesar de esta ser apenas a terceira parte do corpo em que Marcelo repara (primeiro vêm rosto e silhueta), a proporção dos dedos e a sola do pé também pesam na hora da escolha - nada mais coerente para o criador de um fotolog (www.fotolog.net/vorage) dedicado à beleza das solas. Atualmente solteiro, Marcelo satisfaz seu desejo em encontros de fetichistas e adeptos de práticas sexuais não-convencionais que reúnem cerca de 30 pessoas, um terço em busca de podolatria.
• Até posso ter um relacionamento com uma menina de quem eu não goste dos pés, mas não acredito dure muito.
É raro encontrar uma podólatra - a imensa maioria é masculina. A fantasia feminina é mais romântica, como explica a sexóloga Jaqueline Brendler, não fragmenta o homem em partes - peito, bumbum, coxas ou mesmo pés. Mas há muitas mulheres descobrindo o prazer de ter seus pés idolatrados. Ganharam até apelido: são as "deusas" nas festas e casas que reúnem adeptos de podolatria e outras práticas sexuais não convencionais. Há duas semanas, o Clube Dominna, de São Paulo, escolheu a deusa entre as deusas - Alessandra Ferreira, 29 anos, pé tamanho 37, foi eleita a primeira Miss Feet Brasil. Noelle, como é conhecida no meio, não quer saber dos pés de homem, só dos seus. Pena o namorado não pensar o mesmo:
• Ele não é podólatra, infelizmente. Mas não tem ciúme dos meus pés.
A funcionária pública Caroline, 31 anos, também tem um namorado compreensivo. Desde que seus pés começaram a figurar em sites e fotologs de podolatria (inclusive o de Marcelo), não faltam admiradores para propor sessões de adoração. Com a escolta do namorado (que também não é chegado em pés), Caroline descalça as sandálias de salto - e nada mais - para satisfazer o desejo alheio.
• Ter alguém a teus pés é muito bom, assim como saber que se está proporcionando prazer - diz Caroline, que também é adepta do sadomasoquismo. - É muito difícil achar um podólatra que não seja submisso, mesmo que eles ainda não saibam disso. Depois que se abre para esse mundo, normalmente acaba se abrindo para outros também.
O poeta paulista Glauco Mattoso transita em todos esses universos. Homossexual, sadomasoquista e apreciador de pés assumido, ele considera os podólatras um grupo seleto - deixados de lado até pela pornografia (a maioria dos vídeos eróticos mal mostram os pés). Para Glauco, antes assim. Preferível a aura de tabu ao culto generalizado do bumbum, por exemplo, presente desde o refrão do funk aos closes de programas de auditório. E, diz ele, já completamente sem graça:
• O encanto está no desejo secreto.
Como o próprio Glauco encerra o soneto Fabuloso, dedicado ao culto aos pés: "cada um sabe onde lhe aperta...". Não só o sapato, também a fantasia.
Podolatria pelo mundo
• Na Rússia dos czares, eunucos disputavam um emprego curioso: em grandes salões, eles formavam fila para, um a um, acariciar e beijar os pés de grandes cortesãs e mulheres da corte. Elas despiam apenas os sapatos e participavam destas sessões coletivas de podolatria. Os eunucos não tinham permissão para falar com as mulheres: o objetivo era apenas deixá-las no clima para seus respectivos maridos e senhores.
• Na China, antes da revolução de Mao-Tsé-Tung, o gosto nacional por pés pequenos chegou a ser tão exagerado que promoveu atrocidades. Os pés das meninas eram enfaixados com ataduras cada vez mais apertadas para impedir seu crescimento. Algumas chinesas chegaram à idade adulta mancas ou com pés atrofiados. Fonte: Livro Escuridão ao meio-dia, de Geraldo Mayrink Anterior
Marcelo diz: "Até posso ter um relacionamento com uma menina de quem não goste dos pés, mas não acredito que dure muito"
PATRÍCIA ROCHA
Porto Alegre, 05 de junho de 2005. Edição nº 14531
Comportamento - A Internet deu visibilidade à paixão de alguns homens: os pés femininos
Os nomes dos entrevistados foram omitidos ou trocados a pedido deles.



